neurociência e linguagem inclusiva

Neurociência e linguagem inclusiva

 

Como a neurociência e a linguagem inclusiva podem funcionar juntas?

A neurociência explica que nosso cérebro se molda às experiências que vivemos. E tem experiência mais presente na vida da gente do que o uso da linguagem?

Palavras

Cada palavra chega aos nossos neurônios formando links que, por sua vez, formam significados e esses significados se relacionam com outros, formando uma imensa biblioteca em movimento. Não é papo de comunicador, é ciência. E esse episódio se dá pela neuroplasticidade.

O uso de uma determinada língua, como o português, pressupõe a escolha de palavras que se  conjugação para comunicar ideias. Essas escolhas acontecem, muitas vezes, sem que a gente se dê conta, mas sempre a partir de referências anteriores. E , assim, ao longo de décadas e séculos, os usos mais comuns, nem sempre conscientes, vão se perpetuando… Até que pequenas mudanças começam a aparecer, mais e mais, e quebram paradigmas. O que era antes um hábito deixa de ser.

Ssempre que conversamos sobre personas por aqui, falamos o óbvio: fale como seu público fala. Quando usamos palavras que as pessoas estão mais acostumadas, os links entre o que se diz e o que se escuta acontecem mais rapidamente. E com mais precisão.  O cérebro encontra mais rapidamente o significado e suas conexões. E quanto mais conexões limpas, sem barreiras, mais chance de aderir à mensagem.

Pense na sua experiência

Quando as pessoas falam palavras que você não está acostumada a usar, não vem um certo estranhamento? Dá até uma preguiça, né? É porque o cérebro faz muito esforço e ele não gosta disso. Resultado: desliga.

Já temos o hábito de adaptar nossa narrativa para crianças e pessoa de outra geração. Contextualizamos de uma forma “mais fácil”para entender. Logo, esse é um esforço natural para ganhar empatia. E o que se propõe com a linguagem inclusiva é estender essa empatia. 

Qual o seu molde?

Você aprendeu a falar com seus pais, avós, professores. Eles, por sua vez, também aprenderam com outros. E, assim, a oralidade vai transmitindo suas escolhas que, por usa vez, vão sendo feitas por valores. Valores que se atualizam no cotidiano da sociedade. Por isso, a mesma língua pode variar tanto de um país para o outro, de um século para o outro. Mesma língua, nem sempre o mesmo repertório e significado.

Você usa a língua portuguesa como antigamente?

Muita gente acha, por exemplo, que o uso de um termo masculino para definir um mix entre homens e mulheres é algo natural e único da nossa língua, será? Vai ferir a norma se não for assim?

O manual para o uso não-sexista da linguagem, do Governo do Rio Grande do Sul,  que adotamos aqui na Mediapool como inspiração, nos mostra que não é bem assim. Há uma série de recursos inerentes à língua, à disposição, que possibilitam esse equilíbrio entre os gêneros.

Equilíbrio que é mais do que necessário na construção de um mundo que valorize todos os seres humanos no mesmo patamar. Essa é uma demanda social crescente, que já está na raiz das transformações positivas.

Igualdade de gêneros

A igualdade entre gêneros consta da Agenda da ONU para 2030 e está no estatuto de empresas, escolas e instituições que reveem textos antigos para deixar bem clara a mensagem de igualdade e inclusão. E o uso mais consciente da linguagem é, e deve ser, parte deste equilíbrio.

Aliás, se você ainda não leu nosso código de ética, esse é um convite.

Então, como você quer conquistar seus clientes, seu público, seus apoiadores, seguidores, se você fala como antigamente?  

“Mas, você falou que a linguagem carrega seus valores e eu tenho valores conservadores”. Muitos comunicadores, como nós aqui, já ouviram essa desculpa.

Primeiramente, com todo respeito, ninguém está querendo mudar a forma como vive a sua vida, como conservador, na sua intimidade. Não seria democrático. Mas, ao reforçar estereótipos e usar uma linguagem que privilegia o masculino, você pode ser reconhecido como machista. E ser mais e mais bloqueado nas redes sociais, por exemplo.

A cada dia há mais e mais barreiras para filtrar desigualdades como essa. Mesmo boa parte das gerações mais vividas, abandonam velhas formas. Até mesmo as redes sociais estão atentas a essas mensagens, com filtros e algoritmos que localizam o que vai contra os Direitos Humanos.

Para quem quer relembrar a declaração, clique aqui.

Atenção:

“A língua tem um valor simbólico enorme, o que não se nomeia não existe.”

Serão milhares de potenciais seguidores que sem se sentirem incluídos não engajarão.

Usar a neutralidade?

Facilita a inclusão. Diante disso, sem alteração relevante à língua, mas mudando apenas o repertório de escolhas, optar por termos neutros surge como um caminho.

Uma das atitudes de neutralidade?

Evitar generalizações que inclinem para o masculino, plural, por exemplo. Por quê? Porque, quando você escreve no masculino, você torna as mulheres invisíveis na narrativa.

Olha o exemplo :

“os meninos terão atenção médica”, você consegue me dizer se há mulheres nesse grupo? Se tem elas ficaram invisíveis na frase, não é? Você precisa de outro tipo de confirmação para definir se é um grupo com diferentes gêneros.

Quando você fala: “as crianças terão atenção médica”.  Vem uma imagem diferente, não vem?  Escolhas que podemos fazer. E que vão além.

E equilibrar usando os parênteses (o), (a)

Por muito tempo tentou se resolver a inclusão colocando esse tipo de recurso:

“Aluno(a) “

Verdade, estávamos aprendendo a incluir. Mas esse recurso também revela uma predominância e uma alternativa, sendo, em geral, o feminino a alternativa.

Equilíbrio por alternância

Outra técnica que pode ser valiosa é (se não há uma personagem definida) alternar o sujeito feminino e masculino ao longo das escolhas. Exemplo bom para relatos médicos: não tem nome? É um relato genérico, alterne a paciente / o paciente.

Também pode alternar os termos, como fiz acima e você nem percebeu (mas seu cérebro sim). Usei esse recurso 2 parágrafos acima e usei essa técnica no parágrafo acima deste. Equilibrei pela alternância.

Quer uma vantagem de usar a alternância?

A gente já falou em outros textos por aqui que contraste é uma ótima forma de manter o cérebro em estado de atenção. Aproveite.

Inclusão vai além das mulheres

No exemplo acima: “as crianças terão atenção médica”, a neutralidade dá espaço também para os gêneros não-binários. Opa! Nessa hora os conservadores dirão que esta não é uma classificação. Vale relembrar que ela vem da ciência, que há muito deixou de interpretar um organismo tão complexo quanto o humano, apenas pelos cromossomos.

Sistema ELU, ao invés, de A e O

Um passo a mais em direção à igualdade. Verdade que, para os puristas, essa é uma alteração da língua, na gramática e no dicionário. Mas não é a primeira! Foram muitas as revisões do último acordo ortográfico… Particularmente, ainda me dói os olhos conjugar “veem” sem acento. Mas, se me mantivesse presa ao que aprendi, estaria fora da norma.

Mas tem gente já na frente. E se seu público levanta essa bandeira, melhor começar, mesmo devagar. Aliás, cada dia é maior o número de pessoas que defendem a igualdade, na prática.

Mas…

E o (X) ?

Antes de mais nada, quem andou esbarando com o X no lugar do A e do O… Exemplo, meninXs saiba que, já foi notado, ao longo do uso (e em pouco tempo, ufa) que não é 100% inclusivo. Isso porque pessoas com problemas visuais que usam equipamentos de leitura, através do som, encontram dificuldade nessa versão. Os sistemas ainda não estão adaptados para ler com fluência palavras nessa configuração.

O uso do sistema ELU, do U e do E, é uma alternativa que parece mais confortável. Aliás, já é aceito para o espanhol também e para uso acadêmico pela Universidade de Buenos Aires. No Brasil, há empresas como a SOU que usam em toda sua cultura organizacional. E: não, não perderam clientes por isso. Hoje são conhecidos pela cultura inclusiva e de igualdade entre gêneros.

Para entender melhor como aplicar esse sistema, clique aqui.

E aí? O que fazer?

Procure conversar com seu estrategista de comunicação e marketing para entender qual o ponto de equilíbrio com seus objetivos.

Como toda mudança de hábito, ela acontece aos poucos. E essa não é diferente. Defina seus fatores de aceleração. Mas, mesmo com receio do novo, pense que o risco de não se adaptar é não conseguir nos comunicar.

Esse texto do El País, conta como o não-conhecimento do sistema ELU pode causar ruídos à comunicação entre avós e netos.

Acompanhar um Instagram com dicas para o dia-a-dia é outra forma de aguçar a percepção. Esse aqui é referência.

Lembre-se: Use a neuroplasticidade do cérebro a favor da sua comunicação !

Vamos conversar mais sobre isso?

Até já,

Katia Menezes