Neurociência explica porque ensaiar é fundamental

maio 19, 2020 Neurociência

A principal resistência que encontramos em todo o processo de preparação de uma apresentação é ENSAIAR em voz alta: ” não tenho tempo”, “é chato”, “não preciso” são só as objeções principais. Mas quem já passou pela experiência sabe que faz diferença. E a explicação não vem só da psicologia, como também da neurociência.

 

 

A imagem acima mostra a diferença da atividade cerebral em situações que, no cotidiano, achamos que são muito parecidas, mas veja que interessante: quando lemos ativamos uma área, quando pensamos nas palavras outra e quando falamos outra.

Logo:

  • ler e reler pode ajudar a formar a memória, mas não necessariamente vai ajudar na sua performance
  • repassar o discurso mentalmente também pode ter efeito para memorizar, mas não garante o fluxo da fala
  • falar canaliza o que foi escrito e lido para a área do cérebro da fala.

Não importa o quanto conheça o tema, o quanto domine o roteiro, se você vai apresentar – a força virá dessa outra área do cérebro. Falar fará com que você crie as sinapses dentro dessa área e repetir, repetir e repetir fará com que essas sinapses fiquem mais fortes e sejam acionadas com mais facilidade. Em resumo, fará com que o fluxo do conteúdo aconteça de forma mais natural.

Muitas reportagens e artigos falam sobre o lado psicológico. Você já leu muitas vezes sobre o medo de se apresentar em público. E vou contar para vocês: mesmo quem diz que não sente ansiedade, sente. Mesmo quem tem muito treinamento, sente. E, mesmo quando a plateia não é tão grande assim, que é feita de gente conhecida, não é bom ficar 100% confortável. Conforto demais pode fazer com que a gente se sinta em casa… E, em casa, a gente fala coisas que na rua não cabem tão bem…

Sabe por que você improvisa? 

Ao contrário do que muita gente pratica, os ensaios em voz alta não acontecem só no final. “tudo pronto”então vamos ensaiar… Não!

Acontecem ao longo do desenvolvimento do roteiro. Primeiro rascunho pronto? Leia em voz alta. Vai perceber que faz conexões com outros conteúdos que não fez enquanto estava lendo e escrevendo.  Essas conexões que fez são relevantes mesmo para o público? Para a argumentação? Se sim, hora de voltar para a escrita e incorporar. Se não, você já passou pela primeira armadilha do improviso: aquela ideia que aparece na hora, se disfarça de insight, e nos domina a ponto de não conseguirmos descartá-la e seguir a programação inicial.

Você pode achar que ” se ela apareceu, ali na hora, pode ser importante…” Pode, mas, na maioria das vezes, não é. E, como corta o fluxo previsto, atrapalha mesmo um orador experiente. Pior: ao quebrar o ritmo,  pode tirar a força da mensagem principal – que tinha sido tão bem estruturada antes.

Por que mesmo resistimos a ensaiar?

Na maioria das vezes, relacionamos essa experiência com a oratória, técnica mais conhecida no Brasil e que pressupõe que todos precisam se comportar de determinada maneira (igual para todos) no palco. Isso faz com que muita gente pense que não consegue, “que não nasceu para isso”.

Grandes comunicadores nem sempre nasceram “para isso”. Ensaiam e muito, até achar a melhor versão deles mesmos no palco. Ensaiar é um hábito comum a todos, não é exceção. Grandes discursos são ensaiados – em voz alta – mesmo quando são lidos. Além de criar os links mentais na área correta do cérebro,  é também nesse exercício que se consegue prever a  ênfase nas palavras-chaves, no tom específico, pausas e gestos…

Perfil 1

Já estou acostumado a falar para um público parecido, em situação semelhante, e, no final, a resposta tende ao positivo. 

Em geral, encontramos essa situação no C-Level. E a ideia do ensaio é vista como desnecessária, perda de tempo. Sim, o tempo é escasso. E a oportunidade também. Mesmo em uma situação cotidiana como uma reunião entre pares da diretoria, uma reunião com colaboradores ou clientes, não percebemos, mas tem um clichê que é mais que verdade:

A OPORTUNIDADE É ÚNICA.

Quando a mensagem vai pela metade, o estrago está feito. Se você pode usar todo o impacto, por que ficar pela metade?

Steve Jobs conseguia fechar a agenda duas semanas antes de uma grande apresentação, para trabalhar no impacto que ela tinha que causar. Talvez não precise tanto, mas repassar uma vez pela manhã, uma a tarde e uma no fim do dia, é uma rotina que faz muita diferença.

Se você já conseguiu um resultado satisfatório mesmo sem ensaiar, imagina que esse exercício poderia ter elevado esse resultado ao mais que satisfatório… Não se conquista o diferente fazendo tudo igual.

Perfil 2

Domino totalmente o assunto e sei explicar o que for preciso.

Apresentar uma ideia não é dar uma aula. E não é que esse tom aparece com frequência, inclusive em pitch para clientes e investidores! Mas qual a dose certa e qual o tom mais persuasivo para um público e para outro?

Ensaiar em voz alta traz à tona filtros necessários, organiza a informação sob medida e deixa vivos os links exatos que vamos precisar na hora.

Quantas vezes você já se pegou, depois da apresentação pensando: “puxa.. podia ter explicado daquela outra maneira que funcionou tão bem da outra vez”; ” aquela informação ficou embolada e eles não prestaram a devida atenção” e assim por diante.

Perfil 3 

Vou fazer uma participação mínima. 

A participação mínima pode ser  exatamente o ponto de influência que estava faltando. Não subestime pessoas, nem situações. Ensaiar esse pouco antes, vai dar a segurança de performar o máximo que esse conteúdo permite.

Ativar a área correta do cérebro é recorrer ao que temos de mais precioso: nossa natureza. Não só pense no que vai dizer. Fale. Fale para você mesmo e, sempre que possível, para outros. São os outros que percebem se o tom está correto, se você passa insegurança, se tem palavras mais fáceis para comunicar mais claramente. 

 

 

 

Por Katia